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2018-06-18 10:30:05

Reflexões sobre empreendedorismo

Artigo Get Started | Nº 3

No que diz respeito à “movida empreendedora”, o nosso país mudou radicalmente nos últimos anos.  Lembro-me de muitas vezes em intervenções publicas em 2013, 2014, referir que em Portugal havia demasiadas pessoas a falar de empreendedorismo e eu era com certeza uma delas. Mas, independentemente de num dado período de tempo ter acabado por perpassar a ideia que empreendedorismo era igual a criação de empresas e que o empreendedorismo era a panaceia para todos os  males do país, é um facto que temos hoje um ecossistema empreendedor relativamente robusto, se o comparamos  com o panorama há uma década atrás (não é preciso ir mais longe). No âmbito deste ecossistema padecemos hoje de um mal muito luso que é o choradinho em relação à nossa escassa dimensão em relação ao que se faz em alguns países da Europa (Inglaterra, Holanda, Alemanha, por exemplo) e da América do Norte (Canadá e fundamentalmente Estados Unidos, para muitos o Santo Graal do empreendedorismo e o modelo a copiar ignorando as profundas diferenças entre os dois países). Mas … temos o que temos e estamos claramente em evolução.



Gostava apenas de aproveitar este artigo para falar de alguns tópicos que mesmo que muito glosados não deixam de ser fundamentais:


- Se estamos aos poucos a vencer a batalha de criar uma geração com mais mundo, mais capacidade de correr riscos e mais capacidade de empreender por conta própria, continuamos a não ter uma “movida intra-empreendedora” suficientemente interessante e potenciadora do crescimento das empresas. Continuamos a associar em demasia a palavra empreendedorismo ao acto de ter uma ideia e criar uma empresa (empreendedorismo externo) mas necessitamos claramente que esta geração entre nas empresas já existentes e seja empreendedora, tenha capacidade de provocar a mudança por dentro, não tenha medo de por vezes ser o elefante na loja de porcelana. É redutor olharmos para o empreendedor apenas como alguém que cria empresas e negócios !  Insto os jovens a irem para as empresas e … empreenderem com o dinheiro de outros ou seja, tornem-se empreendedores nas empresas por onde passam e não se limitem a guardar as vossas ideias e o vosso potencial para quando criarem uma empresa;


- tenho visto com alguma preocupação que para muitos jovens que empreendem criando os seus próprios negócios, o nirvana é atingido quando arranjam um investidor. Como diz um bracarense que muito prezo e que é um dos grandes responsáveis por esta onda de jovens empreendedores que varre o nosso pais, o objectivo de uma empresa é ter clientes e satisfazer esses clientes e não ter investidores. Uma empresa vive de clientes e não de investidores, não deixando estes de ter naturalmente o seu papel. Como Business Angel que sou e investidor em cerca de uma dezena de empresas, sei qual é o meu papel e o das sociedades de investimento de que faço parte e é com pleno conhecimento de causa que refiro esta distorção que cada vez mais se vai sentindo : a existência de jovens/projectos que são profissionais de concursos de empreendedorismo (sem nunca terem vendido 1€, meses e anos depois de “arrancarem” com  o projecto) e como investidor  percepciono por vezes que tudo o que me é apresentado, os pitch deck que são feitos,  não têm sustentabilidade que vá além do dia da captação do investimento. Volto a repetir : lutem por clientes pois os investidores e o seu funding são um meio e não um fim para o projecto;


- uma penúltima nota tem a ver com a tipologia dos projectos. A maioria dos projectos que me apresentam são do “tipo gazela” ou seja projectos que de um momento para o outro podem ter um crescimento fantástico e uma brutal subida na sua avaliação. Todos procuramos estes projectos, em teoria, mas na prática, são muito poucos (pouquíssimos) os projectos gazela que têm sucesso. É obvio que são esses projectos que criam buzz na imprensa e nas redes sociais, mas a taxa de mortalidade desses projectos é estarrecedora. Por isso, pensemos que há lugar para projectos deste género, mas é importante que não nos esqueçamos que haverá sempre lugar para projectos que podem nunca vir a ter crescimentos vertiginosos mas poderão ser sempre apostas firmes para os seus promotores e investidores. Em sociedades de investimento como aquelas a que estou ligado, procuramos sempre ter no nosso portfolio projectos que possam vir a proporcionar exits com óptimos multiplicadores, mas também (e cada vez mais, friso) olhamos para projectos sólidos, como boas equipas e com escalabilidade global feita de forma realista.

Para finalizar,  coloco aqui uma pergunta que muitas vezes me fazem, como investidor : quais as razões que o (me)  levam a investir num projecto ? Sendo obvio que existe algo que está subjacente a tudo que é a minha capacidade como investidor que tem naturalmente balizas bem definidas, há quatro razões que são fundamentais : em primeiro lugar a equipa, em 2º lugar a equipa, em 3º lugar a equipa e em 4º lugar a ideia/projeto.


Empreendam!!! 



Pedro Fraga

Fundador e Administrador da F3M - Information Systems S.A, accionista e administrador da Braincapital, Braininvest e Braintrust, sociedades destinadas ao investimento em startups.

 

Artigo de opinião elaborado no âmbito da revista Get Started Nº3 | Projeto LIFTOFF

 

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