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2018-07-30 17:33:26

Fórmula secreta para um negócio de sucesso

Artigo Get Started | Nº 3

Abraçar um projeto de empreendedorismo pode em alguns casos equiparar-se a um mergulho em profundidade. Requer coragem e autoconfiança para dar um passo no desconhecido com um maior ou menor conhecimento técnico ou experiência. Estas são apenas algumas das muitas características de um empreendedor que incluem persistência, pro-atividade, criatividade, motivação, paixão, visão, liderança e determinação, entre outras. Um "mergulho" bem-sucedido encerra a promessa de atingir um novo mundo, com diferentes perspetivas e opções. Contudo, o percurso é sinuoso e os imprevistos frequentes. O sucesso não é garantido e quanto mais cedo ocorrem falhas e erros, mais cedo se corrige a trajetória com significativos ganhos económicos e pessoais. Não há muitos relatos de viva voz de empresas tecnológicas que falharam em Portugal, não porque estejam garantidas todas as condições para o sucesso, mas sim porque a falha é culturalmente "inaceitável" e, portanto, não se partilham estas experiências. Num projeto de empreendedorismo falhar faz parte do processo de aprendizagem e é essencial para a sua evolução, pelo que as falhas devem ser criticamente analisadas, mas nunca rotuladas nem julgadas. O ecossistema de inovação, que inclui diferentes atores tais como empreendedores, mentores, investigadores, académicos, especialistas em propriedade intelectual e comercialização de tecnologia, investidores, entre outros, tem um papel crucial na preparação dos futuros empreendedores e na partilha destes sucessos e insucessos.

 

Mas afinal quais são as principais causas de falha das empresas tecnológicas? Surpreendentemente, ignorar os clientes e as suas necessidades ocupa o primeiro lugar da lista, enquanto que, o não existir uma real necessidade por parte do mercado ocupa o segundo lugar. Estas falhas revelam o hiato entre a perceção que a empresa tem do mundo real e a realidade. É  comum encontrar estas situações em tecnologia, esquecendo-se de analisar o mercado e ouvir a "voz do cliente". O terceiro lugar no ranking das causas de falha das empresas é ocupado pela equipa. Quando esta não se complementa, não tem motivação, tem elementos em part-time, não tem um pivot forte (rosto da empresa), ou é disfuncional, dificilmente a empresas chegará a bom porto. Outras causas comuns incluem marketing desapropriado, timing incorreto para entrada do produto/processo ou serviço no mercado, preço desadequado concorrência, má localização, má gestão financeira, modelo de negócio inadequado, falta de financiamento, produto/processo ou serviço de má qualidade, rede de contactos mal explorada, perda de foco e esgotamento.

 

Haverá então uma fórmula secreta para um negócio de sucesso? Infelizmente não, caso contrário não existiriam projetos falhados. Existem, porém, algumas orientações que permitem minimizar o risco envolvido. Uma boa ideia não chega, mas é o primeiro passo. Depois, é preciso explorar como a comercializar. Para isso, é preciso analisar questões de propriedade intelectual e restrições regulamentares, analisar o mercado, definir um bom modelo de negócio e saber fazer contas, ou seja, fazer uma análise financeira realista. Antes de avançar com a criação da empresa, é importante garantir que alguém está interessado em comprar o produto/processo ou serviço. Os potenciais interessados devem ser chamados a testar a proposta de valor e se possível validar um protótipo. É ainda crucial encontrar a "equipa certa" que não deve ser a equipa dos amigos de noitadas ou dos grupos de trabalho da universidade, mas sim uma equipa complementar em que todos os elementos representam uma mais valia para o projeto. Adicionalmente, manter o foco e resistir à tentação de enveredar por caminhos com um retorno mais imediato são boas medidas para rentabilizar recursos geralmente limitados no início destes projetos. Um projeto focado e realista está mais bem posicionado para angariar financiamento.

 

Em conclusão, apesar de também ser preciso uma pitada de sorte nesta fórmula, não se pode deixar ao acaso a garantia de que os quatro pilares essenciais para um negócio de sucesso, ou seja, a ideia, a equipa, o mercado e a gestão, estão presentes.

 

 

Lígia R. Rodrigues


É Professora Auxiliar com agregação na Universidade do Minho. Doutorou-se em Engenharia Química e Biológica (2005) pela UM e desde então tem vindo a desenvolver a sua investigação nas áreas da biologia sintética, biotecnologia alimentar e industrial, diagnóstico e prevenção do cancro em colaboração com vários laboratórios internacionais. É responsável pela gestão de vários projetos de investigação com financiamento público e privado. Publicou mais de 100 artigos em revistas científicas internacionais com arbitragem pelos pares (índice H = 32). Está envolvida na lecionação de unidades curriculares de inovação e empreendedorismo em vários ciclos de estudo. Adicionalmente, tem estado envolvida na criação de várias Spin-Off na área das Ciências da Vida.


Artigo de opinião elaborado no âmbito da revista Get Started Nº3 | Projeto LIFTOFF

 

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