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2018-08-07 12:38:49

Uma sociedade empreendedora e sustentável

Artigo Get Started | Nº 3

Estávamos em 1987 quando a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento publicou o Relatório Brundtland, também conhecido como "Our common Future". Neste documento, há uma frase que salta à vista: "A Humanidade tem a capacidade de se desenvolver sustentavelmente, assegurando a satisfação das necessidades presentes, sem comprometer as necessidades das futuras gerações.". Em pleno século XXI não é possível ignorar esta definição. Mais do que um conceito, é hoje uma filosofia de gestão que deverá fazer parte de todas as organizações e, particularmente, daquelas que pertencem ao terceiro setor - tipicamente subsidiárias do Estado e muito dependentes da comparticipação de outras entidades.

 

Mais de 55 mil entidades, 260 mil trabalhadores, cerca, de 5,5% do emprego total remunerado e um contributo de 3,8% para o Produto Interno Bruto, é o estado da arte da economia social em Portugal. Uma economia que se distingue das outras pelo reinvestimento dos excedentes e pela sua enorme relevância social. Na mente de qualquer empreendedor é um Mundo de oportunidades e desafios, onde se encaixa o maior de todos eles: a inovação social. No terceiro setor, os obstáculos ao desenvolvimento sustentável que mais saltam à vista passam pela redução da dependência de subsídios públicos e a diversificação das suas receitas próprias, num domínio onde a missão perante a sociedade deve ser sempre colocada em primeiro. Uma das necessidades flagrantes para as empresas e entidades deste setor passa pela profissionalização e formação dos trabalhadores, voluntários e quadros dirigentes, mas não é suficiente para o aumento da sua produtividade. É necessário procurar soluções junto da sociedade, via subcontratação de serviços e produtos e de uma ligação mais estreita com as universidades. É necessário introduzir fatores de inovação e produtividade, procurando melhores resultados no cumprimento de objetivos e sobretudo na capacitação dos grupos e públicos que são alvo da sua intervenção.

 

É aqui que entra o empreendedorismo social. De larga escala, como o projeto de Muhammad Yunus, fundador do microcrédito e Prémio Nobel da Paz em 2006, a startups e spin-offs como a Shairart, focada na divulgação da atividade de artistas emergentes, são inúmeros os exemplos de sucesso de projetos de empreendedorismo com impacto social, a nível nacional e internacional. Então, o que falta para promover mais inovação social? Olhemos para o exemplo proveniente das potências europeias, como o Reino Unido, pioneiro na criação de legislação referente às empresas sociais ou "social enterprises". Já em Portugal, este estatuto tem vindo a ser ignorado, privando o setor do acesso a um volume alargado de financiamento europeu, a que Portugal, por não ter esta figura regulamentada, não pode aceder. Por outro lado, é importante impulsionar os mecanismos de financiamento já existentes, nomeadamente os Títulos de Impacto Social, um mecanismo de pagamentos por resultados, de âmbito social, no qual as organizações respondem a problemas sociais e o Estado paga mediante a concretização de objetivos comuns.

 

Por cá, é premente despertar os jovens empreendedores, mapeando casos de sucesso e procurando uma aproximação ao tecido financiador, business angels e às instituições bancárias. A força do setor social é, acima de tudo, o espelho dos valores de uma comunidade. Essa força, por sua vez, depende da sua sustentabilidade e da sua ação transformadora junto da sociedade. E essa só pode ser garantida pela introdução de uma praxis de políticas inovadoras e empreendedoras.

 

Nuno Henrique Vieira Reis

 

Nasceu no dia 6 de abril de 1995, no concelho da Póvoa de Varzim. É estudante do Mestrado Integrado em Engenharia e Gestão Industrial, membro do Conselho Geral da Universidade do Minho e Presidente da Associação Académica da Universidade do Minho, desde janeiro de 2018.


Artigo de opinião elaborado no âmbito da revista Get Started Nº3 | Projeto LIFTOFF

 

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