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2018-07-23 17:21:20

A era do “entrepreneurial boom”

Artigo Get Started | Nº 3

O empreendedorismo deixou de estar na moda para ser a moda. Nos últimos anos, assistimos a uma erupção de summits, meetups conferences, sobretudo na área das IoT. São dezenas os programas e concursos para empreendedores a decorrer neste momento em Portugal. Vivemos na era do "enterpreneurial boom" e das ideias de negócio disruptivas, da artificial intelligence e do machine learning, das cryptocurrencies e do blockchain.


No início deste ano, a Forbes considerou Portugal como "o novo destino" para investir. Temos mar, sol e talento qualificado (principalmente no que diz respeito a software developers). Temos atraído grandes empresas, como o recentemente anunciado centro de desenvolvimento Android da Google.

 

Acredito, verdadeiramente, que somos um país de fazedores, mas ainda falta fazer muito. É necessário (re)pensar e trabalhar toda esta tendência, de forma a tirar o máximo partido desta vaga empreendedora. temos de deixar de comparar o ecossistema de empreendedorismo nacional a ecossistemas como Silicon Valley, Berlim ou Londres. Não porque somos piores, não porque somos melhores, mas porque é impossível comparar ecossistemas com características populacionais, culturais, governativas e económicas tão diferentes.

 

Em Portugal, as aceleradoras de startups tem tido um papel importante, proporcionando aos empreendedores um vasto conjunto de ferramentas e mentoria no desenvolvimento dos projetos. O sistema governativo tem trabalhado afincadamente em programas de apoio ao empreendedorismo (exemplo do trabalho feito pela secretaria de Estado da Indústria ou das iniciativas promovidas pela Startup Portugal e os seus stakeholders). O startup visa veio para ficar e tem funcionado como veículo de entrada para empreendedores estrangeiros.

 

Este ano foram já criadas mais de 20.000 empresas (um número superior ao período homólogo de 2017). Mas observando com mais atenção, vemos que este número é inferior à soma das dissoluções e insolvências de empresas, que este ano conta já com um número superior a 23.000. Esta simples comparação, chama a atenção para o facto de ainda haver um longo caminho a percorrer: não precisamos apenas que os empreendedores consigam "surfar" esta vaga, é necessário trabalhar também para que os empreendedores se mantenham na crista da onda.

 

É nesse sentido, que programas de apoio ao empreendedorismo devem ser otimizados de forma a canalizar esforços (humanos, técnicos e financeiros) para alavancar projetos que desenvolvem soluções/produtos/serviços capazes de resolver problemas atuais, reais e objetivos, contribuindo desta forma para a redução de uma das principais causas de insucesso das startups: a falta de mercado para o seu produto/serviço.

 

O elevado número de empresas criadas nos últimos anos não representa, por si só, o ecossistema de empreendedorismo nacional. Até porque é necessário olhar também para as grandes empresas - muitas delas no mercado há muitos anos - e que se conseguiram adaptar ao futuro, arrojar e inovar. Não podemos esquecer também de que muita da inovação tem origem no match entre grandes empresas e startups.

 

Um investidor de Braga escreve noutro artigo desta revista sobre a ideia de que empreendedorismo não é só criar empresas. Realça ainda o facto da "movida intra-empreendedora" (...) que se vive atualmente ainda não ser "suficientemente potenciadora do crescimento das empresas (...)". Concordando a 100% com esta ideia, considero que temos falta daquilo a que nos livros de gestão são denominados de intrapreneurs. Uma das respostas para este desafio poderá começar logo a montante, no estímulo da relação universidades/centros de investigação/grandes empresas/indústria - atores que, na minha opinião, são indissociáveis. Este matchmaking é cada vez mais importante, até porque uma das melhores formas de ajudar os alunos a entrar no mercado de trabalho pode passar por estimular os mesmos a investigar/estudar/resolver in loco desafios concretos e efetivos das grandes empresas.

 

Na era do "entrepreneurial boom" vamos manter-nos na crista da onda?

 

 

Rui Pinheiro 

 

É dinamizador de eventos na área da empregabilidade e empreendedorismo. Criador do blog O Empreendedor Bracarense. Tem vasta experiência como orador em programas de empreendedorismo e pré-aceleração de ideias de negócio. Atualmente, é o responsável pelas parcerias e produção de eventos na aceleradora de startups Startup Braga.

 

Artigo de opinião elaborado no âmbito da revista Get Started Nº3 | Projeto LIFTOFF

 

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